05 junho 2013

Sugestão de nome: Afrodísio.

01 junho 2013

Ritual de passagem: cães, paixões e descuidos

"O Pit Bull impressiona à primeira vista por ser um cão de força, paixão e força de vontade ilimitada. (...) O American Pit Bull Terrier (APBT) tem grande prazer em agradar. O APBT despertou mais respostas emocionais humanas, racionais e irracionais, do que quaisquer outras raças existem hoje. De forma alguma esses cães são odiadores ou comedores de pessoas. Suas tendências agressivas naturais são direcionadas a outros cães e animais, não a pessoas. Porém, se forem corretamente socializados com firmeza, mas também calma e confiança por um consistente líder, eles não serão agressivos nem mesmo com animais.Fonte

24 maio 2013

Afectos


Reflexões de duas personagens: 

Na história de Carla Aducci, Zé Nego é a saudade escondida de Dita. O seu cheiro na roupa a veste também. "Quem é que sabe não confundir as vestes? Quem é? Quem é?", ela se pergunta.
...
No diário de Túlio Carella, King Kong é "um exemplar de proporções surpreendentemente galhardas e os exercícios corporais completaram a harmonia que emana da sua carne com fluido misterioso. Tudo nele se combina com graça e vigor: a cabeça sustentada por um robusto pescoço, os ombros largos e a pélvis estreita; a pele dourada, o cabelo louro e crespo constituem outros detalhes assombrosos". Tem "tórax de centauro" e "uma mão grande, sadia, de homem trabalhador; a palma muito larga". Sorrindo, "mostra uma dentadura impecável". "Sua voz é a única coisa que parece destoar do conjunto de perfeições (...), parecendo pertencer a outra pessoa". 
Depois de algumas vivências junto a esse homem, o autor reflete: "Em algumas ocasiões já me caiu das mãos algum objeto de vidro que, ao espatifar-se contra o solo, quebrou-se em mil pedaços, ficando quase irreconhecível, irreparável. Mais ou menos isto que me acontece quando olho para King Kong. Era de vidro".

07 julho 2011

Vale do suplício



Pobres gatinhos com as patinhas queimadas no telhado de zinco, magnésio e estrôncio.
Perdem a oportunidade de se abrir para vivenciar as coisas e as pessoas, e correm atrás de nosografias para justificar seus medos.
Habitam o mundo virtual dos desejos felinos a esperar força para aquele salto.

18 junho 2011

A tal malandragem


A arte de flanar rareia. Vejo-me por vezes capturado em certos enquadramentos, e, em seguida, uma insânia me consome. Sinto saudade da verdadeira loucura. Não essa angústia adulta que às vezes rouba meu sono e abate meu sorriso. Não essa noção de responsabilidade que muitas vezes traz o cogitar antes de qualquer coisa. Não esse sentimento instituinte de falta. Quero o vário, o múltiplo, a coragem e umas asas grandes.

Por uma costela







No ônibus, um homem me dizia que seu sonho é morrer sobre uma moto em alta velocidade.
Ainda jovem assim?, perguntei.
Ele me contou que desde os doze anos teve motocicleta e gosta da velocidade nas duas rodas. Morrer dessa maneira é sonho antigo, mas teve de vender o meio de transporte porque sua mulher grávida apelou para "a moto ou eu". E ele escolheu a máquina.
Cinco dias depois voltou para casa, pois não aguentou de saudade: "Nada como uma costelinha para abraçar em cima da cama".

Sintoma


Certa tarde, eu lia na praça Maracanã. Passou um homem jovem e parou bem no centro dela. Juntou as mãos como se empunhasse uma ferramenta. Olhando para todos os lados, fazia movimentos longitudinais enquanto repetidamente gritava: "O peso do mundo!".
Quase juntei-me a ele.

10 agosto 2010

Oh, jovem deslumbrado!

Oh, jovem deslumbrado!
Sonha em ser douto, e não passa de um garoto assustado.
Talvez necessite sair de seu gabinete e tocar a vida com o corpo.
Sua obsessão por circunvoluções oculta o que?
Sua ironia inglesa o aproxima de quem?
Oh, jovem emissor de singular enunciação,
Que sua presunção não se transforme em amargura.

04 agosto 2010

Tãoquídia


A planta rara do canteiro mais obscuro do jardim mostra seus talos como indiferentes às estações e, subitamente, lança um cacho de flores de aquarela pouco vista, quase olvidada.
A gente fica alerta, com respiração curta, a regalar-se daquela beleza com o cuidado de evitar movimentos bruscos para não desfolhá-la e nem desfalecer.
Quão re-sentir emoção antiga.

02 maio 2010

Silen-cio


Quando se chega sorrindo em lócus de pessoas cabisbaixas, há uma abertura para o novo, pela brejeirice ali contida. Mas os olhares nunca são familiares em terra de relações envoltas em plástico verde e prata. Lá o exótico está até em si, e tudo é uma ameaça...

20 novembro 2007

Generalizada!

Relato sintético de um fato verídico:

Uma militante GLBTT e uma travesti conversavam.
T - Ai, patá, to apaixonada por um homem trans.
L - Que legal!
T - Ele é muito sedutor, sinto um tesão babado nele.
L - Se joga.
T - Tô confusa. Nem sei mais se sou hetero, homo, trans. Patá, tem tanto gênero em mim...
L - Hmmm...
T - Já sei, estou generalizada!

18 dezembro 2006

Como não utilizar o futuro do pretérito?

Ao som de "Nothing compares 2 U", na interpretação de Jimmy Scott.


Melissa P. descobria o amor e o sexo, idealizava um certo rapaz, e, na impossibilidade de concretizar seus anseios, entregava-se às febres e aos gozos quase anônimos. Já que os homens podiam seduzir e desseduzir, por que ela não poderia também?
Seus encontros minimizavam uma dor, e pôde comprovar isso quando provocou o sangue e conteve as lágrimas. Quando ignorou um desejo específico e se entregou a outro inesperado. Quando viu seu diário desnudado e mandou todos à merda.
Mas ela queria aquele olhar que aguardou, aquele abraço que viu sua avó receber do namorado, aquele carinho que um dia viria. Queria tanto que até tentava mudar de idéias. E depois da centésima escovada no cabelo poderia deixar de sentir isso. Mas não conseguia.

Eu já pedi ao panteão para deixar de desejar o distante e esquecer a completude. E todas as canções me levam àqueles olhos, àquelas mãos quentes, àquela cara de criança que come chocolate.
Não dói, apenas preparo-me para possível reencontro passando cem vezes a pedra pomes nos pés ao banhar-me.

08 dezembro 2006

Bate-papo












H1 - OlaHHHHHHHHHHHHHHHHHHhtchim!
H2 - e ae
H1 - Tudo chocolate com uva itália?
H2 - tudo goiabada com queijo
H1 - Mai miner-o, mas eh baum tamein.
H2 - é?
H1 - Mas tem que ser da cascão.
H2 - sem duvida
H2 - Então eu...
H1 - Eba!
H1 - Vc eh ou faz o que?
H2 - Eu sou uma pessoa que vive
H1 - Ergo sum...sei.
H2 - sei lá
H2 - é tão difícil dizer o que sou
H2 - mas resumidamente trabalho com educação em saúde
H1 - Barbar... dá aulas de educação sexual?
H1 - Eh professor de enfermagem?
H1 - Medicina?
H1 - Farmácia?
H2 - mais a ver com educação sexual
H2 - kkk, jah saquei tudo.
H1 - Estou falando com um tarado diplomado...kkk
H2 - não, hehehe
H1 - Que pena...
H2 - não existe curso pra ser tarado, logo não há diploma
H1 - Vou dormir...tchau...nissi tu miti iou.
H2 - fica mais
H1 - A mó di q?
H2 - proseá amenidades
H1 - Pode ser turbulências?
H2 - sim
H2 - desde que não abra crateras no solo
H1 - Sou o próprio Grand Canyon, sem implicações e ou conotações sexuais...kkk
H2 - muitas rugas?
H2 - nada contra as rugas, acho-as belas
H1 - Nem..
H1 - Acho-as eh horrível.
H1 - As acho eh mais elegante.
H2 - e vc o q faz?
H1 - Trepo em pé couve pra catah manga, mas doquê eu gosto mesmo eh de melância.
H2 - melÂncia mesmo? mais ambiguidades...
H1 - Mergulha surdamente no reino das palavras...
H2 - não consigo
H2 - elas falam muito
H1 - Leia Drummaum.
H1 - Ele darah um jeito de calá-las.
H2 - de fato preciso ler mais obras poéticas
H1 - Não me venha com esse papo de quem "fais" letras.
H2 - hmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
H1 - Amei o seu epitáfio no bate papo ...kkk
H1 – “Adeus bate-papo, espero nunca mais voltar aqui”.
H2 - pois é
H2 - entrei na sala em busca de calor e geou em minha alma
H1 - Não cace piranha em rio de javalis.
H2 - pois é, mas e aí? o q vc faria se só habita a casa dos porcos selvagens e quer buscar outra variedade anímica?
H1 - Cê vai, ocê caça, você que não volte de mãos vazias.
H2 - simples assim!
H1 - A vida eh assim.
H1 - Umbigo, doisbigos, ambíguo.
H2 - "Não há atalho até o umbigo"
H1 - Ah, óia qu'eu te ensino um.
H2 - duvido.

15 novembro 2006

Agenda

Coloquei este poema na minha agenda de tarefas.

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te.
A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

Quem sou eu: (2)



Hoje sinto-me um misto de Gustav Von Aschenbach e Carrie White.

14 novembro 2006

Quem sou eu:


Eu poderia ser Nina Simone, Rimbaud, Luís Fernando Veríssimo, Franz Liszt, Tião Macalé, a florista da esquina, o lavador de carros. Poderia saber voar, ter poderes paranormais, ou então ler três livros por dia.
Mas sou eu, com um jeito interiorano e um desespero, um amor tão grande e uma vontade de nadar, umas palavras tão precisas e uma falta de necessidade de ser. É fácil lidar comigo, é só ler a bula. Como não tenho, bastam meus olhos.

11 novembro 2006

Fotos que fiz

A menina dança

Laranjeiras

Jardim secreto

Exposição


Janelas?

Maresia no Guarujá

Crespúsculo em Assis

10 novembro 2006

Espera...


Cada vez são menos compreensíveis as razões do amor. E cada vez menos creditada aquela frase romântica de três palavras, com dois pronomes e um verbo, aquela que dizem o tempo todo nos filmes estadosunidenses, nas capas de cadernos de colegiais, nos folhetins televisivos, nos romances de banca de jornal.
É preferível sentir a proximidade de quem falta, mesmo à distância. Mas vem o silêncio e a frase escrita junto a uma letra de música estrangeira.
Será querer demasiado falar do cotidiano como se fazia outrora? Será excessivo ultrapassar os limites do respeito ao outro e pedir atenção? Será patológico não se conformar com os ecos de um afeto preso à memória do corpo?
Enquanto isso, a espera de uma resposta vai consumindo os nervos, os pulmões, o estômago.

03 novembro 2006

Motivações cibernéticas


Às vezes repito um mantra, que na verdade é uma música cantada pelo Milton:
"Se queres ser feliz como me disse
No Analices
No Analices
No Analices
No Analices
Se queres ser feliz como me disse".

Uso em várias ocasiões, mas hoje veio combinada com uma canção do Vinícius: "Deixa".

Às vezes tenho medo...

05 agosto 2006

Espírito do cassino



Aquele escritório fora anos antes um cassino, dentre as inúmeras configurações que teve o prédio. Uma senhora comandava o pôquer clandestino. Com mãos de ferro dava as cartas, controlava as apostas, selecionava os clientes. Enfim, detinha o poder.
Poucas pessoas sabiam da natureza daquele negócio, dentre elas os vizinhos. A mulher os odiava, aqueles estudantes-intrometidos-que-queriam-saber-de-tudo. Na verdade, eles apenas se divertiam com as curiosidades da nova cidade, e mantinham o segredo das observações que faziam sobre as coisas-que-ninguém-via. No entanto, ela não acreditava nisso, achava que eram delatores em potencial, e se crispava toda quando via aqueles jovens.
Eis que um dia aconteceu um incidente hidráulico. A caixa d'água compartilhada apresentou problemas e estudantes e cassino ficam sem água. A patrona gastava o resto da água com a limpeza do seu chão de bebida e bitucas, os jovens sem banho resolveram conversar com ela para talvez encontrarem todos juntos uma solução para o problema. Seria o primeiro encontro.
Dois dos jovens subiram aquela vintena de degraus receosos do que podiam encontrar. Depararam-se com um imenso salão sem divisórias. Paredes brancas escurecidas de poeira. Três mesas redondas com feltro. Um balcão de fórmica com uma caixa-registradora e um freezer. Naquela hora da tarde já havia jogo. Todos se voltaram para os garotos com espanto, os três homens da mesa e a mulher, cujos olhos se prenchiam de sangue.
- O que vocês querem?
- Aqui também está faltando água?
- Está sim, vocês gastam tudo lá em cima. Se fossem mais econômicos isso não aconteceria. Já falei para o dono do prédio para separar os registros.
- Não, senhora, deve estar acontecendo algum problema com o encanamento, porque já faz dois dias que não temos água e ontem vimos que aqui tinha...
- Como assim, o que vocês andam vendo?
- Er... ahn... Vimos a água escorrendo pela calçada, e saía daqui.
- Verdade, a senhora estava lavando...
- Vocês não acham que estão se metendo demais no que não diz respeito a vocês? Que diabos têm de vir aqui pra minha cidade? Ficassem lá na de vocês, onde tem água, luz e tudo mais.
- Calma, senhora!
- Calma coisa nenhuma! Vocês têm de aprender uma liçãozinha, seus estudantes de merda.
Em um compasso, mãos, pernas, troncos, corda, cabelos, gritos, tudo se misturava. Cigarro, mesa caindo, cartas espalhadas. Chutes, socos, gemidos, sufocamento. Os dois jovens estavam estirados no canto do salão asfixiados. Nem uma gota de sangue fora derramada.
Depois de dois dias, vieram os bombeiros. O salão vazio tinha apenas um dos rapazes já azulado e inchado. Na gazeta a manchete: Estudante se suicida em salão vazio.
No escritório, o diálogo:
- Nossa, faz frio aqui, né?
- É mesmo, lá fora está um calorão.
- Dizem que onde há espírito melancólico é frio mesmo.
- Ai, deixa de ser boba...

29 julho 2006

Ex-tensão universitária


Depois do trabalho, a presença no boteco era fundamental naquela sexta. Ele ia sozinho mesmo, pois lá sempre encontrava alguém com quem sentar e tomar sua cerveja e conversar um pouco, mesmo se fosse para ouvir as conversas sobre docentes, sobre os entorpecimentos ou as velhas piadas de sempre.
Chegou e encontrou a moça que mora no andar de cima, junto de dois desconhecidos. - Senta aqui com a gente. - Claro! Mas, antes de qualquer diálogo, já tinha em mente que somente tomaria uma dose naquela mesa. As conversas versaram sobre o palestrante gringo, sobre a fome e o sono que ela sentia e sobre a falta do que fazer naquela noite provinciana. - Até logo, vou tomar outra cerveja com aquele pessoal. - Até mais!
- E aí? Posso sentar com vocês? - Claro! Ali falava-se sobre música, sobre a festa que aconteceria em breve, sobre contas a pagar. Um gajo presente fazia questão de exaltar sua inclinação por algumas moças do recinto, porém seu olhar indicava outra direção. Ao mesmo tempo, o outro rapaz da mesa, destroçava uma embalagem de gomas com os dedos, por fim o atirando em sua namorada. Fim da garrafa, outra mesa.
- Oi! - E ae? - Oi, querido! - Esse aqui é um amigo nosso! - Se divertindo? - Estou apenas lambendo o mundo com os olhos. - Por que? Queria o que? - Ora, lamber com a língua! E a conversa girou em torno de moradia, gatos, lembranças e amizades. A moça-que-estava-triste-e-chapada estava o tempo todo em rusgas leves com o visitante-amigo-íntimo-do-amor-dela. Totalmente compreensível. Era melhor para o recém chegado fingir que não entendia os fatos. Fumou um cigarro com eles e foi embora.
- Se quer ser feliz, não analise!

25 julho 2006

Deslumbramento: uma proposta de roteiro


Conversas "intelectuais" em locais inesperados. Como Direitos Humanos com taxista, reflexões sobre a corporalidade no elevador, crítica ao capitalismo junto à vendedora de briquedos...

- Sabe que queimaram um ônibus aqui na cidade?
- É? Nossa, uma cidade tão pequena...
- Sabe de quem é a culpa? Dessas pessoas que deixam todos muito livres.
- Mas quem é que está livre hoje em dia? Não percebe que estamos todos capturados pela sociedade de controle, que o panóptico já se transformou em seminóptico, que os mecanismos sociais consistem na docilização das pessoas?
- Ã?
- Pois então, é isso mesmo, estamos cristalizados em estruturas que não permitem o refluxo. A sustentação de identidades rígidas trabalha a serviço da economia de massa e as pessoas perderam espaço para reflexões. O terrorismo do Estado se man...
- Escuta, onde você vai ficar mesmo?
* * * * * * * *
- Calor né?
- Nossa, nem fale, não dá nem pra pensar direito.
- Verdade, eu estava tentando resolver uma questão, preciso tomar uma decisão na minha vida.
- Deve ser algo realmente preocupante, pois você está com uma cara tão muxibinha...
- Não faço outra coisa senão chorar, acho que meu namorado não gosta mais de mim.
- Como você percebeu isso?
- Ah, antes ele era tão atencioso, olhava nos meus olhos, se preocupava com minha opinião, era mais caloroso... Agora parece que se eu não estivesse perto, ele nem perceberia. Outro dia até perguntei se não era hora de terminarmos e ele fez um escândalo, insinou que eu tinha outro, que eu era uma ingrata e que ele fez tanto por mim.
- Nossa, calma, não precisa chorar. Ou melhor, chora mesmo. Chora porque você está enfrentando uma situação de opressão de gênero. Você está sendo aviltada pelo sexismo que oprime as mulheres e as coloca em posição inferior aos homens. Esses homens querem a obtenção de maior lucro possível do outro, principalmente das mulheres! As relações de afeto estão permeadas pela ótica mercantilista e se não tomarmos cuidado nos subjetivaremos como meros produtos que consomem. Desde os anos setenta o movimento feminista vem discutindo as relações de gênero e borrando os limites dessa divisão binária.
- Mas...
- É isso mesmo, temos que questionar! As pessoas devem ser críticas e compreender que a naturalização não é natural, que o que entendemos por mundo é uma construção sócio-histórica.
- É que...
- Não, não me venha com respostas compensatórias. Essa coisa de dizer que mulher é compreensiva é um artifício de dominação dos corpos. É parte do biopoder! E...
- Ei, calma, não precisa se exaltar assim, afinal o problema é meu. Só estava comentando.
- De forma alguma! E os rizomas? ... Onde ficam os rizomas?
- Ai, ai...

Foucault e a história do cotidiano


Ele foi a um seminário acadêmico. Quatro comunicações. Uma palestra. Temas: sexualidade, família patriarcal, panóptico, sociedade de controle, amor e rock, controle social.
Havia amigos de trabalho, muitos estranhos, vontade de saber e desejo. Desejo que aflorava pelos póros. E uma necessidade de continência para a sociabilidade.
Pois que se apaixonou pela paixão de um pelo trabalho, pelos dentes pontiagudos de outro. Atrás de si um tipo forte e sem ossos. Sentia suas correntes de calor, sua presença, sua atenção que ora se manifestava.
Intervalo: De onde vem? Qual seu nome? E o seu? Onde está hospedado? Vim com uma amiga.
Mais rigor científico. Criação de roteiro à parte. E a presença palpitante do moreno.
Final: Você sabe onde há uma lan-house? Ali adiante! Que vai fazer agora? Vou ali no bar e vc? Eu também, vamos lá.
Na saída a tal amiga que já chegou o abraçando. Ela demarcou seu território, mas parecia que o afagado não correspondia à altura. Como sempre, o outro manteve a discrição. O visitante estava atento a todos os movimentos dele. No caminho até o bar, uma conhecida, outra conhecida, e o estrangeiro retardando sua "amiga" para esperar.
Não demorou pra ela perceber o movimento. O território cada vez era mais demarcado. E a marcação ficou cerrada. Ele já não mais olhava para o visitante. E percebeu que cada vez mais ela se irava com a atração de seu "amigo" pelo outro. Quase que discretamente, chamou sua atenção e o visitante tornou-se mais frio que mármore.
E a possibilidade tornou-se uma quimera.

On line... off line


Há um tempo atrás, li uma coluna no jornal que falava da efemeridade dos contatos contemporâneos. Danuza lamentava a perda da emoção em receber cartas e da falta de todo o ritual para a leitura de uma missiva. De certa forma, concordo com ela. Mas não tanto pela questão do aspecto físico da correspondência, mas do seu próprio conteúdo.
Na última semana, fiquei tão feliz por postar uma carta escrita de meu punho, que até me senti deslocado no tempo. Todo o processo me parecia atemporal: uma manhã de segunda-feira, música e tranqüilidade. Com uma paixão que se estendia para além de mim, o texto surgiu como se já tivesse sido rascunhado. E pronto, coloquei no envelope, e levei até o correio.
Gostaria que a resposta viesse pela mesma via. Mas nem sei se ela virá de outro modo. Nem sei se ainda estou naquele adress book, pois até então os contatos foram eletrônicos.
Porém intensos.
Ai, essa vida onde os caminhos parecem encurtar está ficando cada vez menos coletiva. E viva a ortopedia, pois minha coluna está em frangalhos.

24 julho 2006

Querência


É duro estar na querência.
De ontem a hoje, conversei com duas pessoas. Muito interessantes. Encontrei uma figura que só via no meu trabalho, e que na época nem podia olhar direito. Freqüentei uma cidade e a amaldiçoei com um canto antigo.
Tudo on-line.
Off-line? Apenas o desejo de pele. Não concretizado. Por isso a canção.

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Tom Jobim - Chico Buarque

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Hoje à noite
A gente se perder

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Hoje à noite
A lua se apagar

Quem já viu a lua cris?
Quando a lua começa a murchar
Lua cris
É preciso gritar e correr
Socorrer o luar

Meu amor
Abre a porta para a noite passar
E olha o sol da manhã
Olha a chuva
Olha a chuva, olha o sol
Olha o dia a lançar serpentinas
Serpentinas pelo céu
Sete fitas
Coloridas
Sete vias
Sete vidas
Avenidas para qualquer lugar
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Sabe que o menino que passar debaixo do arco-íris vira moça, vira
A menina que cruzar de volta o arco-íris rapidinho volta a ser rapaz
A menina que passou no arco era
O menino que passou no arco
E vai virar menina
Imagina
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