25 julho 2006

Deslumbramento: uma proposta de roteiro


Conversas "intelectuais" em locais inesperados. Como Direitos Humanos com taxista, reflexões sobre a corporalidade no elevador, crítica ao capitalismo junto à vendedora de briquedos...

- Sabe que queimaram um ônibus aqui na cidade?
- É? Nossa, uma cidade tão pequena...
- Sabe de quem é a culpa? Dessas pessoas que deixam todos muito livres.
- Mas quem é que está livre hoje em dia? Não percebe que estamos todos capturados pela sociedade de controle, que o panóptico já se transformou em seminóptico, que os mecanismos sociais consistem na docilização das pessoas?
- Ã?
- Pois então, é isso mesmo, estamos cristalizados em estruturas que não permitem o refluxo. A sustentação de identidades rígidas trabalha a serviço da economia de massa e as pessoas perderam espaço para reflexões. O terrorismo do Estado se man...
- Escuta, onde você vai ficar mesmo?
* * * * * * * *
- Calor né?
- Nossa, nem fale, não dá nem pra pensar direito.
- Verdade, eu estava tentando resolver uma questão, preciso tomar uma decisão na minha vida.
- Deve ser algo realmente preocupante, pois você está com uma cara tão muxibinha...
- Não faço outra coisa senão chorar, acho que meu namorado não gosta mais de mim.
- Como você percebeu isso?
- Ah, antes ele era tão atencioso, olhava nos meus olhos, se preocupava com minha opinião, era mais caloroso... Agora parece que se eu não estivesse perto, ele nem perceberia. Outro dia até perguntei se não era hora de terminarmos e ele fez um escândalo, insinou que eu tinha outro, que eu era uma ingrata e que ele fez tanto por mim.
- Nossa, calma, não precisa chorar. Ou melhor, chora mesmo. Chora porque você está enfrentando uma situação de opressão de gênero. Você está sendo aviltada pelo sexismo que oprime as mulheres e as coloca em posição inferior aos homens. Esses homens querem a obtenção de maior lucro possível do outro, principalmente das mulheres! As relações de afeto estão permeadas pela ótica mercantilista e se não tomarmos cuidado nos subjetivaremos como meros produtos que consomem. Desde os anos setenta o movimento feminista vem discutindo as relações de gênero e borrando os limites dessa divisão binária.
- Mas...
- É isso mesmo, temos que questionar! As pessoas devem ser críticas e compreender que a naturalização não é natural, que o que entendemos por mundo é uma construção sócio-histórica.
- É que...
- Não, não me venha com respostas compensatórias. Essa coisa de dizer que mulher é compreensiva é um artifício de dominação dos corpos. É parte do biopoder! E...
- Ei, calma, não precisa se exaltar assim, afinal o problema é meu. Só estava comentando.
- De forma alguma! E os rizomas? ... Onde ficam os rizomas?
- Ai, ai...

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