05 agosto 2006

Espírito do cassino



Aquele escritório fora anos antes um cassino, dentre as inúmeras configurações que teve o prédio. Uma senhora comandava o pôquer clandestino. Com mãos de ferro dava as cartas, controlava as apostas, selecionava os clientes. Enfim, detinha o poder.
Poucas pessoas sabiam da natureza daquele negócio, dentre elas os vizinhos. A mulher os odiava, aqueles estudantes-intrometidos-que-queriam-saber-de-tudo. Na verdade, eles apenas se divertiam com as curiosidades da nova cidade, e mantinham o segredo das observações que faziam sobre as coisas-que-ninguém-via. No entanto, ela não acreditava nisso, achava que eram delatores em potencial, e se crispava toda quando via aqueles jovens.
Eis que um dia aconteceu um incidente hidráulico. A caixa d'água compartilhada apresentou problemas e estudantes e cassino ficam sem água. A patrona gastava o resto da água com a limpeza do seu chão de bebida e bitucas, os jovens sem banho resolveram conversar com ela para talvez encontrarem todos juntos uma solução para o problema. Seria o primeiro encontro.
Dois dos jovens subiram aquela vintena de degraus receosos do que podiam encontrar. Depararam-se com um imenso salão sem divisórias. Paredes brancas escurecidas de poeira. Três mesas redondas com feltro. Um balcão de fórmica com uma caixa-registradora e um freezer. Naquela hora da tarde já havia jogo. Todos se voltaram para os garotos com espanto, os três homens da mesa e a mulher, cujos olhos se prenchiam de sangue.
- O que vocês querem?
- Aqui também está faltando água?
- Está sim, vocês gastam tudo lá em cima. Se fossem mais econômicos isso não aconteceria. Já falei para o dono do prédio para separar os registros.
- Não, senhora, deve estar acontecendo algum problema com o encanamento, porque já faz dois dias que não temos água e ontem vimos que aqui tinha...
- Como assim, o que vocês andam vendo?
- Er... ahn... Vimos a água escorrendo pela calçada, e saía daqui.
- Verdade, a senhora estava lavando...
- Vocês não acham que estão se metendo demais no que não diz respeito a vocês? Que diabos têm de vir aqui pra minha cidade? Ficassem lá na de vocês, onde tem água, luz e tudo mais.
- Calma, senhora!
- Calma coisa nenhuma! Vocês têm de aprender uma liçãozinha, seus estudantes de merda.
Em um compasso, mãos, pernas, troncos, corda, cabelos, gritos, tudo se misturava. Cigarro, mesa caindo, cartas espalhadas. Chutes, socos, gemidos, sufocamento. Os dois jovens estavam estirados no canto do salão asfixiados. Nem uma gota de sangue fora derramada.
Depois de dois dias, vieram os bombeiros. O salão vazio tinha apenas um dos rapazes já azulado e inchado. Na gazeta a manchete: Estudante se suicida em salão vazio.
No escritório, o diálogo:
- Nossa, faz frio aqui, né?
- É mesmo, lá fora está um calorão.
- Dizem que onde há espírito melancólico é frio mesmo.
- Ai, deixa de ser boba...

2 Comments:

Blogger Cleophânia said...

Reformulei meu comentário. Ainda estou passada com as suas reflexões ;P . Agora vai:

Oi, Nei, lembra da Raquel do Espanhol? Parece q vc desistiu da 2ª habilitação mesmo, né? Duas faculs seguidas aqui em Assis é insanidade (da boa) mesmo ;)

Estou escrevendo pra te cumprimentar pelo olhar agudo com que vc apreende as situaçõs cotidianas da nossa vida universitária. Vc encontrou um tom com que eu me identifico: uma mistura contraditória de desespero e esperança com esse mundo louco em que a gente vive. Melancolia, paixão e a força pra não se render ao caminho confortável do "socialmente valorizado". Adorei, parabéns!

5/8/06 14:46  
Anonymous David said...

Ola... num me vi aki naum...rs...

10/8/06 11:20  

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